sábado, 7 de abril de 2018

Um caminho para o destino (Un camino hacía el destino) - Conto Introdutório


Sinopse: Uma história sobre amar verdadeiramente, mudar, crescer, conhecer, se tornar alguém melhor, aceitar que o mundo muda e o tempo passa.
Emiliano Azurra, um vampiro de 125 anos, tornou-se assim graças a um Ancestral às portas da morte. Transformado em algo que nem ele mesmo entende por completo, viu-se acolhido por uma bruxa, Felicia Morresi, que inicialmente o odiou por suas más ações como um grande latifundiário e líder político nos fins do século dezenove na Argentina. Por ela salvo da insanidade total causada pelo frenesi do poder, viu-se com uma escolha: ou mudava ou morria.
O passar do tempo, porém, o fez conviver intensamente com as maiores transformações que o mundo passou e também com a pessoa sensível e bondosa que Felicia se revela em determinadas situações. Além de fazer nascer entre ambos um forte sentimento cuja força muitas vezes é desdenhada por muitos. Que despertará todas as desconfianças possíveis e fará vir à tona todos os sentimentos reprimidos em relação às ações da bruxa, conhecida por não poupar esforços em punir quem merece, além de jamais desperdiçar oportunidades de ter aliados poderosos, cujas vantagens ela não hesita em usar. E os inimigos não hesitarão em usar de todos os recursos para impedir que esse romance floresça.
Os dois, porém, estão prontos para enfrentar tudo e todos em nome de trilhar o seu caminho para o destino: o amor.


O Vampiro Arqueiro


O menino nasceu no primeiro dia do signo de Sagitário de 1845. Os pais, imigrantes espanhóis, fiéis serviçais da fazenda Villa Real, batizaram–no como Emiliano Pedro, homenageando os avós. Apenas um dia após o nascimento, registraram–no como Emiliano Pedro Luján Azurra.

Conforme os meses foram passando, o bebê mostrava–se muito curioso e inteligente. Os donos da fazenda, incapazes de gerar filhos, escolheram–no como afilhado e de tudo lhe deram desde a mais tenra idade. Encantaram–se por quão bonita era aquela criança. E por como o nenê olhava quando pessoas estranhas se aproximavam e quando um objeto desconhecido estava por perto.

Ainda mais encantador Emiliano tornou–se quando virou animalzinho sob duas patas. Corria feito um leopardo pela fazenda, tão rápido que nem mesmo os mais hábeis peões davam conta de pegá–lo quando a madrinha, quase louca de preocupação, o pedia. Subia nas árvores feito um “monito” e acertava, de brincadeira, frutinhas em todos que passavam. E era fascinado pelos indígenas que ali trabalhavam, especialmente por um que manejava arco e flecha com habilidade ímpar.

Foi quando, no aniversário de cinco anos, o pequeno Emiliano pediu de presente um arco e uma aljava de flechas. Os pais e padrinhos estranharam aquele pedido, afinal, por que uma criança iria querer aprender a manejar algo tão perigoso? No fim, lhe deram. De brinquedo. Explicaram ao pequeno que ele, no momento, deveria manejar coisas sem ponta porque as cortantes podiam machucá–lo.

O que sucedeu em seguida foi surpreendente. O menino, apenas observando, já manejava o arco com maestria quase adulta. E possuía uma inacreditavelmente acurada pontaria, mesmo as flechas sendo de mentira. Não que o índio não quisesse ensiná–lo, mas achava melhor não travar aproximação, afinal, ele era afilhado dos patrões. Admitia, porém, que o pequeno Azurra tinha muito talento.

Os anos novamente foram passando. Emiliano mostrava um talento cada vez maior para o arco e flecha. E uma pontaria cada vez mais mortalmente acurada. Não raro alguns dos peões reclamavam que o menino, só de diabrura, acertava seus chapéus. Os padrinhos respondiam que eles não tinham nada para se preocupar, pois o rapazinho não fazia por mal.

O rapazinho, por sua vez, tornou–se um moço muito bonito anos após. Azurra tinha dezessete anos quando o padrinho, após anos de ensinos, lhe deu um revólver. Na opinião do fazendeiro, homem tinha que aprender a manejar armas de fogo. Não negava, porém, que o arco e a flecha eram úteis à longa distância. O agora jovem Emiliano andava armado tanto com o revólver quanto com seu inseparável arco de madeira e suas afiadíssimas flechas, cuidadosamente organizadas, em uma aljava presa às suas roupas.

Embora ele admitisse que atirava bem, o jovem preferia mil vezes seu arco e flechas. E ele estava certo.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Uma história extraordinária sobre uma tarde de 1935...


Aquela tarde de junho em Medellín


Tudo aconteceu rápido demais.

Uma imensa e espessa nuvem de fumaça negra tomava conta de parte do aeroporto.

Gritos horríveis anunciavam a eminente presença da Morte.

Um homem tossia como nunca. Corria como se daquilo dependesse sua vida. Tentava enxergar algo no meio daquela inacreditável névoa quente e escura. Não queria pensar o pior, mas certamente acontecera. Sentiu um impacto demasiado próximo. Certamente uma peça de fuselagem ou parecida havia caído ali perto. Deu graças a Deus por não ser atingido. Precisava saber. Tinha.

Daquilo dependeria o futuro da Terra.

Apenas minutos depois, Volgin nunca sentiu o Fim tão próximo. Os aviões chocaram–se de forma brutal menos de um minuto antes. Explodiram com tal força que o homem se admirou, assustado, de ninguém ali fora ter se ferido. Apavorado estava ao pensar que podia ter morrido, ou gravemente se ferido, junto dos outros, que decerto estavam mortos ou pelo menos seriamente feridos. Talvez com quase nenhuma chance de sobreviver.

O caos causado pelo acidente terminou com a chegada do resgate. Ou pelo menos em teoria. Era possível ouvir vozes muito altas fazendo comentários consternados. Outros, furiosos. Mais deles, inconformados. Todos, porém, com o mesmo sentimento: uma tragédia inominável havia ocorrido e nada eles podiam fazer para revertê–la.

Na verdade, porém, alguém podia. Ou pelo menos o homem ali presente achava. Miguel Ângelo Volgin, célebre hematologista, esperava que pelo menos uma centelha de vida ainda corresse naquele corpo agora carbonizado no chão do aeroporto. Reconhecível pela perfeita arcada dentária, documentos e duas plaquinhas com nome e endereço.

“Deus, que visão horrível”, pensava ele. Tinha certeza de aquele acidente não tinha causas típicas de um aéreo. Nada de problemas topográficos ou meteorológicos. Menos ainda problemas de motor ou coisa parecida. Sim um atentado cuidadosamente planejado por criaturas malignas desejosas de impedir a união dos Guerreiros da Lua. De repente, Miguel chorou de raiva. Não era justo. Ele não merecia! Os malditos responsáveis iriam pagar não importava quanto tempo demorasse! Janus decerto já sabia. Com certeza estava furioso e mais certo ainda era sobre o Ancestral não desistir da vida do cantor por mais pouco provável que fosse ele ainda viver após tal coisa.

Alguém talvez se pergunte como ele sabia de tudo aquilo. Miguel Ângelo era um dos poucos humanos a conviver com a fauna sobrenatural mesmo não sendo vampiro, lobisomem, bruxo, Caçador, etc. Janus, um dos mais poderosos Ancestrais, gostara muito do então rapaz recém–formado médico. Ele achou o jovem capaz de aprender a não ser tão obtuso como tantos outros mortais. Motivo pelo qual criou uma ligação mental com ele, que sempre se assustava com aquilo. Ele nunca acharia ser capaz de mudar alguns de seus conceitos fortemente arraigados desde o nascimento. O fizera, porém.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Pelo Dia Internacional da Mulher, que tal algumas poesias de uma mulher?

 
Aspecto

Vivo dentro de quatro paredes matemáticas
Alinhadas metricamente. Rodeiam-me apáticas
almazinhas que não sabem um pingo sequer
Desta febre azulada que nutre minha quimera.

Uso uma pele falsa que listro de gris
(corvo que sob a asa guarda uma flor-de-lis
Provoca-me certo riso o bico feroz e raivoso,
Que eu mesma crio para farsa e estorvo.)


Doce tortura

Poeira de ouro em tuas mãos foi minha melancolia;
Em tuas mãos compridas esparramei minha vida;
Minhas doçuras às tuas mãos ficaram presas;
Agora sou uma ânfora de perfumes vazia.
Quanta doce tortura quietamente sofrida,
Quando, ferida a alma de tristeza sombria,
Ciente de enganos, eu passava os dias
Beijando as duas mãos que me sugavam a vida!


Quadrados e ângulos

Casas enfileiradas, casas enfileiradas,
Casas enfileiradas.
Quadrados, quadrados, quadrados.
Casas enfileiradas.
O povo já tem a alma quadrada,
Ideias em fila
E ângulo nas costas.
Eu mesma verti ontem uma lágrima,
Meu Deus, quadrada!


Pressentimento
Tenho o pressentimento de que viverei pouco.
Esta minha cabeça, semelhante ao crisol,
Purifica e consome.
Mas sem nenhuma queixa, sem nenhum sinal de horror,
Quero para o meu fim que em uma tarde sem nuvens,
Sob o límpido sol,
Nasça de um grande jasmim uma serpente branca
Que doce, docemente, me pique o coração.
 
 
Por hoje, é só. Mas deixo cá um conselho: valorizem as autoras femininas (sejam elas cis ou trans, heteros, bi ou homos) de todas as eras e todos os gêneros.

Com carinho, de uma dama teimosa que não bate muito bem das ideias.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Novo romance (com capa e sinopse), um conto em quatro atos no Wattpad e futura parceria...

Como eu mencionei no meu post anterior, estou com novas histórias em andamento, uma delas sendo baseada em fatos e personagens reais, onde eu misturo História, terror, vampiros, vingança, romance, mistério e aventura...

































Sinopse: Em janeiro de 1871, casos de uma misteriosa doença começam a atingir a capital argentina Buenos Aires e em apenas quatro meses, 8% da população da capital morreu. E nem mesmo os melhores médicos sabem o que causou o terrível surto de mortes.
O que ninguém sabe, porém, é o que aconteceu naqueles 120 agoniantes dias: enormes revoadas de pássaros, gigantescos enxames de insetos, gritos ecoando pelas madrugadas frias, escuras e nevoentas da capital. O mais horrendo e que todos viram ao vivo e a cores: cadáveres empilhados pelas ruas e sendo desovados em um novo cemitério, construído no famoso bairro da Chacarita.
Entretanto, dos 8% de mortos pela misteriosa doença, 6% deles retornaram, em grandes grupos, como mortos-vivos, sob ordens de uma misteriosa, diabólica e vingativa força que em algum lugar do passado foram homens comuns que ajudaram a construir o país tal como ele é agora. Mas pagando um alto preço por suas escolhas: o desterro e a morte.
Cada um têm seus motivos. Todos têm sede de sangue. Nenhum deles, piedade.
Os Próceres querem vingança!
(Sei que a capa definitivamente está longe de ser um trabalho profissional, mas como não tenho emprego, como mencionei no post anterior, portanto, sem reais condições de pagar um capista, tive de eu mesma pensar em uma capa que transmitisse o que quero passar com a história.)


A segunda parte do post refere-se a uma história em quatro partes que há algum tempo já está no Wattpad, ainda com poucas visualizações e esperando para ser apreciada por mais leitores. Também inspirada numa história real, ocorrida na minha cidade em 1896...


Sinopse: Porto Alegre, 1896.
A noite que cai sobre a cidade esconde mistérios além da compreensão humana. Mistérios estes que um jovem casal, vítima de um amor incompreendido pela sociedade, procura compreender enquanto volta do mundo dos mortos com faculdades sobrenaturais. Aventure-se pelo desconhecido...
Se puder.
 (Pelo meu querido amigo Andrey Kusanagi.)


Por último, quem estiver interessado em parcerias, tenho os seguintes termos a colocar:
  •  Enviarei um conto a cada duas ou três semanas, dependendo do meu ritmo, pois infelizmente eu continuo sem todo o meu material disponível. Como estou estudando para um concurso e elaborando novas histórias, além de dar tempo para vocês, farei dessa forma.
  • Como não tenho recursos para fazer marcadores ou outros mimos, tudo o que poderei fazer é divulgar as resenhas ou outros posts de vocês em troca de feedbacks, sejam eles positivos ou não. A opinião sincera de vocês será um diferencial para a escolha de parceiros.

Novamente, por hoje é só. Boa noite e uma porção de bênçãos.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Explicações sobre ausência, palavras sobre meu retorno e uma proposta...


Primeiramente, boa noite, meus amados leitores e seguidores. Sentiram falta de mim nos últimos 26 dias? Espero que sim porque eu também senti muita falta de vocês!

Razão pela qual a primeira parte dessa postagem de retorno é uma explicação de porque eu estive fora tanto tempo quando originalmente meu plano era postar pelo menos uma vez a cada quatro ou cinco dias...

Como nem todos os meus seguidores me conhecem bem, começo dizendo que infelizmente, desde que me formei, em 2012, não consigo um emprego fixo, apesar de que eu e meus familiares vivemos bem a despeito disso, e há anos venho postando currículos, mas minha falta de experiência não me ajuda, e fazendo concursos e até mesmo engatei um curso EAD em Técnico em Administração pelo SENAC na esperança de mudar isso. Inclusive venho tentando trabalhar como freelancer de revisão textual, pois minha área, Letras, tem isso como uma de suas especialidades. Essa falta de oportunidades acaba me desanimando muito e esse desânimo interfere demais na minha inspiração, o que muitas vezes me faz improdutiva, o que para um escritor é quase como a morte.

Meu motivo para querer tanto um trabalho, mesmo um "freela": quero poder ajudar financeiramente minha família (pois já ajudo minha mãe com tarefas de casa e levo meu pai na rua quando ele precisa sair porque sozinho ele não dá conta), que tem muitos gastos e evitar que minha mãe precise continuar trabalhando (ela é aposentada por tempo de serviço há mais de cinco anos, mas infelizmente ela ainda não recebeu a rescisão a que tem direito) quando há algum tempo ela já não está em 100% de suas condições devido à cistos atrás de um dos joelhos, que também apresenta uma calcificação do menisco, o que causa muita dor nela quase todos os dias. Além do meu pai ganhar pouco mais que um salário mínimo devido à sua cegueira (25% por incapacidade do INSS devido à deficiência visual). Com mais um trabalhando, as despesas seriam mais facilmente sanadas e algumas coisas que ainda precisamos fazer na casa, por motivo de que o empreiteiro que a reformou cometeu erros crassos que nos custou consequências ainda hoje sentidas, poderiam ser feitas sem a necessidade de um grande número de prestações.

Peço a vocês, do fundo do meu coração, que, se conhecerem alguém que precisa de revisão textual, seja de monografia, dissertação, tese, livro, conto ou o que for, me indique, pois cada centavo que vir disso pode ajudar muito. E com certeza quem me contratar receberá não apenas uma revisora cheia de boa vontade, também um trabalho cheio de qualidade e cuidado porque se existe uma coisa que eu aprendi com esses mesmos pais que quero ajudar mais ainda, foi a ser compromissada e responsável.

Passada a explicação, quer dizer que a partir de hoje eu postarei pelo menos uma vez a cada cinco dias, variando os assuntos, já que não tenho apenas contos. Há também os romances extensos, as notas do Professor Colman, o Bestiário e muito mais. Além de posts referindo-se a vários personagens reais que aparecem em meus contos cujas histórias eu colocarei aqui para que vocês possam conhecer melhor a História da Argentina, que é extremamente rica e cheia de personagens fascinantes dos quais com certeza todos irão gostar muito.

Por fim, estarei selecionando parcerias para o blog, pois considero importante saber o que as pessoas acham do meu trabalho antes que eu possa ir mais longe, no caso, para um trabalho com uma editora. Razão pela qual tive a ideia, pois atualmente há um grande número de autores autopublicados com muitas leituras em plataformas como Wattpad e LuvBook, além da Amazon, entre eles as maravilhosas Alana Gabriela e Barbara Herdy. Que são, para meu orgulho e honra, parceiras do Galáxia de Ideias. Que é o blog em que eu e as minhas Irmãs Galácticas Stéfani, Bárbara, Camila, Isabela e Tamara trabalhamos em prol da maravilhas que são viajar pelo mundo da leitura, assistir bons filmes e séries e falar de assuntos sérios que precisam sempre ser discutidos.

Quanto ao termos da parceria, ainda não posso definir muita coisa porque nunca fiz isso antes e também não estou com todo o meu material disponível devido a um problema com a fonte do meu desktop, outra razão pela qual não estive postando aqui. Ainda mais porque dependo, no momento de um notebook de 2012 que antes pertenceu a uma tia minha, a Marilza. Que, tendo morado por quase trinta anos na Argentina, foi em parte responsável pelo nascimento do universo dos Vampiros Portenhos ao me apresentar as maravilhas desse país.

Devido a esses pontos, tudo o que posso prometer é enviar a vocês amostras do meu trabalho quando eu puder organizar o que tenho aqui, pelo menos no momento. Quanto ao que quero em troca, é somente uma coisa: o retorno de vocês através de resenhas e comentários.

Por hoje é só.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Comienzos y sus desdobramientos...

Classifico esse conto como um "antecedente", pois o personagem principal da trama é um dos recorrentes na série de contos Plantão de Polícia, o que saberão como acontece quando a série começar a ser publicada aqui...



Fome de Viver


1926, porto de Buenos Aires...

Os dois alegres rapazes levavam o tímido amigo para um cabaré localizado naquela banda. Diziam maravilhas sobre as duas dançarinas fazendo a alegria dos frequentadores. O discreto rapaz que os acompanhava espantou-se quando ouviu sobre elas ficarem seminuas durante o show e acerca delas dançarem enroladas em serpentes. Seria mesmo verdade aquilo tudo? Ou seus amigos Políbio e Silvano já estavam altos de bebida? Ele não duvidava, considerando as inúmeras bebedeiras protagonizadas por eles.

Chegaram após um trajeto bastante acidentado pela calçada decadente da minúscula rua. A despeito da antiguidade do local, até que era bem conservado. Bonito até, pelo menos para o padrão baixo dali. Enrique Discépolo¹ estava acostumado com locais bem melhor localizados, a bem da verdade. Considerando que ele frequentava os teatros e cabarés do centro junto do irmão Armando, um famoso dramaturgo e diretor teatral. Deu-se conta, lembrando-se da conversa com os amigos, que o show começava dali apenas alguns minutos. Tinham chegado em cima do horário. E o local estava tão cheio que mal eles conseguiam dar um passo sem tropeçar em pés masculinos. Seria um milagre se encontrassem um lugar vago.

Acharam, em uma parte onde podiam ver o palco inteiro. “Tivemos sorte”, pensou Enrique enquanto esperava o início do espetáculo. Ou pelo menos era o plano inicial, pois um intenso cheiro de queimado logo adentrou o lotado salão. Todos saíram às pressas e aos tropeços quando alguém gritou que havia fogo no local. Mal Enrique, Políbio e Silvano levantaram quando uma inacreditável língua de chamas surgiu do palco. O fogo subia rapidamente pelas cortinas e algumas fagulhas quase foram nas roupas do trio, que correu desabaladamente. Discépolo, porém, ficou ao notar que possivelmente haveria gente em perigo. Era pouco provável os bombeiros chegarem antes de um estrago pior ser feito.

Os amigos tentaram dissuadi-lo, mas não puderam. Enrique, a despeito da fumaça e das chamas, conseguiu ultrapassar o palco. Usava a gravata recém-tirada para cobrir o nariz e a boca, evitando assim intoxicar-se. Pela bagunça que via nos corredores, era evidente que quem estava ali já havia escapado. Ele, no entanto, tinha certeza de estar ouvindo gritos femininos de socorro e gemidos agoniados de um homem. Ao finalmente encontrar, viu o que claramente era um estrangeiro, precisamente um turco, agonizando com uma faca cravada no estômago. Ele mal e parcamente conseguia mexer-se, mas a mão apontava a porta, que parecia estar trancada com algo jamais visto por Enrique.

sábado, 20 de janeiro de 2018

O desabafo de um jovem vampiro...

 
 
O garoto perdido 


Dormir o dia todo. Festejar a noite toda. Nunca ficar velho. Jamais morrer. É divertido ser um vampiro.

Isso, porém, não é tão verdade quanto eu gostaria de pensar. Como os garotos tão perdidos daquele filme oitentista estavam errados.

Ser um vampiro é muito mais que isso. Às vezes, se não sempre, a coisa dói muito fundo. Afinal de contas, eu e vários dos meus amigos deixamos muito para trás. No meu caso, deixei uma esposa que eu muito amava. Desejei levá-la comigo, mas muitas razões me levaram a desistir desse intento. Uma delas com certeza foi não desejar vê-la carregar o pesado fardo que a eternidade pode ser na maior parte do tempo. Outra razão foi que eu tive a certeza, ao vê-la depois de minha morte, sobre ela não desejar viver eternamente.

Ainda mais porque nós dois não deixamos algo pelo qual continuarmos vivos. Leia-se, nunca tive filhos. Embora nós muito quiséssemos. No entanto, acho que o destino, ou seja lá qual for a força que move esse mundo louco, talvez soubesse que meu destino iria muito além de 1934.

Sim, faz muito tempo que eu passei da existência mortal e limitada para um corpo imortal e jovem. E por muito tempo me perguntei qual era a razão para continuar a viver. Eu ainda me pergunto, na verdade. Quando, porém, eu penso em quantas vezes eu e meus amigos da Patrulha do Tango evitamos catástrofes, imagino que essa é a razão. Embora eu saiba que a maioria nunca saberá das nossas ações. E talvez seja até melhor assim, dado que os seres humanos tem grande tendência a não aceitar aquilo que difere demais do esperado.

Não que eu me importe, mas meus companheiros às vezes se importam demais. Eles não falam, mas eu sei que sentem. E sentem bem mais que muitos humanos normais. Imagino que muitos se perguntam como nós temos sentimentos quando nosso coração sequer funciona. Bem, os sentimentos independem do coração, até porque todo o sistema humano funciona de fato através do cérebro. Afinal, uma pessoa só é considerada morta de fato quando a medicina declara a chamada “morte cerebral”. Na verdade, eu não entendo muito de fisiologia humana até porque, de certo modo, a minha não é. Voltando à questão dos sentimentos tais como eles são, a verdade é que um dia eu e tantos outros já fomos humanos e de certa maneira, permanecemos sendo.

Afinal, trazemos das nossas vidas anteriores as boas e más lembranças. Os ensinamentos que nossa vivência nos deu. O aprendizado que tiramos das coisas ruins e boas que vivemos. No entanto, não são todos os vampiros que se mantém intactos em seu ser a despeito da longa vida. Muitos deles se perdem no poder que isso proporciona. Sentem como se tivessem o mundo nas mãos. Eu mesmo já me senti assim, mas a verdade é que o mundo não está na mão de quem quer que seja. E quem pensa assim acaba sofrendo a pior das quedas e muitas vezes sequer consegue se reerguer. Pior ainda é quando quem passa por isso se recusa a reconhecer seus erros e insiste neles. Eu sempre me pergunto o porquê de muitos agirem assim.

Tem pelo menos mil e um motivos para isso. Especialmente o fato de que uma parte da humanidade se acha a dona do planeta e pensa que pode tudo sem pensar no resto. Não é de se admirar que as expectativas para o futuro estejam longe de ser as melhores. E que alguns políticos têm de criar incontáveis políticas ambientais na tentativa de conter a poluição e desmatamentos que ocorrem planeta afora. Pois se isso não acontecer, quem sabe o que será do futuro da Terra e seus habitantes? Estou certo do pensamento de muitos sobre eu querer preservar mesmo é o alimento vindo dos humanos. Eles talvez estejam certos, porém, eu realmente me preocupo com o planeta.

Porque eu gosto das flores em todas as suas formas e aromas. Gosto de ver como as crianças brincam com seus animais de estimação. Adoro respirar o ar puro de uma floresta mesmo eu não precisando de oxigênio para viver. Aprecio o azul do céu mesmo não podendo tocar o dia. Eu só queria um dia para poder apreciar isso em toda a plenitude. Sei, porém, que esse dia nunca virá. E eu confesso: sofro com isso mais do que gostaria de admitir.

Meu nome é Ernesto Ponzio* e eu sou apenas um garoto perdido no meio de uma humanidade ainda mais perdida.



*Conheçam-no melhor:  https://g.co/kgs/GE3rSS